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Chile avança na regulação da poluição luminosa e se torna referência na América Latina

Para Juan Pablo Valenzano, da Fundação Cielos de Chile, o desafio não é iluminar menos, mas iluminar melhor diante do avanço da poluição luminosa.

O avanço da poluição luminosa tem se consolidado como um dos principais desafios ambientais das cidades contemporâneas. No Chile, o tema vem sendo tratado com protagonismo, combinando ciência, legislação e conscientização pública para preservar um dos seus maiores patrimônios naturais, os céus noturnos.

A Fundação Cielos de Chile foi criada em 2019 a partir da preocupação de observatórios científicos diante do crescimento acelerado da iluminação artificial no país. Desde então, a instituição atua na promoção dos céus escuros e na conscientização sobre o tema. “Nosso principal foco tem sido valorizar os céus noturnos e destacar seu potencial científico, turístico e cultural”, afirma Juan Pablo Valenzano.

Reconhecido mundialmente pela qualidade de seus céus, especialmente na região norte, o Chile enfrenta hoje o avanço da iluminação urbana e industrial. Segundo Valenzano, “a principal fonte de poluição luminosa está nas grandes cidades, impulsionada pela expansão demográfica e pelo uso crescente de LED branco de tonalidade fria”. Ele também destaca o crescimento da iluminação industrial em regiões estratégicas para a astronomia.

Para enfrentar esse cenário, o país foi pioneiro na criação de uma legislação específica. A regulamentação existe desde 1998, inicialmente voltada à proteção de áreas com observatórios. Em 2024, uma nova normativa ampliou o alcance para todo o território nacional, incluindo também os impactos sobre a biodiversidade e a saúde humana.

A legislação estabelece áreas de proteção especial, com critérios mais rigorosos para regiões sensíveis. Apesar do avanço, a implementação ainda ocorre de forma gradual. “A aplicação da norma ainda enfrenta desafios, principalmente pelo desconhecimento inicial e pela limitação de recursos para fiscalização”, explica Valenzano.

Outro ponto de atenção está no uso da tecnologia LED. Embora amplamente associada à eficiência energética, sua aplicação inadequada pode intensificar os impactos ambientais. “É fundamental considerar três aspectos: direção, cor e intensidade da luz”, destaca o especialista.

Os efeitos da poluição luminosa vão além da perda de qualidade do céu noturno. Diversas espécies são impactadas, incluindo aves, insetos e tartarugas marinhas. No Chile, ao menos 17 espécies de aves marinhas já apresentam alterações de comportamento causadas pela iluminação artificial. “Algumas aves se desorientam completamente ao entrar em contato com luzes artificiais”, ressalta.

Na saúde humana, estudos indicam que a exposição à luz azul durante a noite interfere na produção de melatonina, prejudicando o sono e podendo contribuir para doenças como obesidade, diabetes e alguns tipos de câncer.

Para ampliar a conscientização, a Fundação atua com palestras, eventos e materiais educativos, além de iniciativas de ciência cidadã. Ferramentas digitais permitem que a própria população reporte focos de poluição luminosa, contribuindo para a geração de dados e o engajamento social.

O Chile também participa de iniciativas internacionais e possui áreas certificadas por organizações voltadas à preservação do céu noturno, consolidando sua posição como referência global no tema.

Apesar dos avanços, desafios culturais ainda persistem, como a associação entre maior iluminação e maior segurança, além da expansão de projetos sem avaliação adequada de impacto luminoso.

Para Valenzano, a urgência é clara. “A poluição luminosa cresce cerca de 10% ao ano no mundo, mas é um problema que pode ser resolvido rapidamente”, afirma.

Segundo ele, o caminho está na mudança de abordagem. “Não se trata de iluminar menos, mas de iluminar melhor.”

CONHEÇA JUAN PABLO VALENZANO

Juan Pablo Valenzano é um profissional dedicado ao estudo e à análise do território, com atuação em áreas como gestão de projetos, avaliação ambiental, conflitos socioambientais e desenvolvimento comunitário. Ao longo de sua trajetória, também desenvolveu expertise em sistemas de informação geográfica, além de estudos em glaciologia e hidrologia.

Atualmente, integra as iniciativas da Fundação Cielos de Chile, onde contribui para o debate sobre os impactos da poluição luminosa, atuando na conscientização e na promoção de políticas voltadas à preservação dos céus noturnos.

Juan Pablo Valenzano, Geógrafo chileno. (Reprodução/Foto: Fundación del Chile)

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