Arquiteto e urbanista baiano, vice-presidente do CAU-BA, destaca a interdisciplinaridade como chave para o desenvolvimento urbano sustentável
O crescimento das cidades brasileiras coloca desafios cada vez mais complexos para gestores públicos e profissionais do urbanismo. Para Ernesto Carvalho, arquiteto e urbanista com doutorado pela Universidade Federal da Bahia e parceria acadêmica com a Universidade de Huddersfield, na Inglaterra, enfrentar esses desafios exige muito mais do que legislação atualizada: exige gestão qualificada, planejamento integrado e diálogo entre escalas. Vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU-BA) e coordenador adjunto da Câmara Federal de Patrimônio, ele esteve presente no SIIPE 2025, realizado na Bahia, e voltará ao evento em sua próxima edição com uma agenda ainda mais ampla.

Três pilares de uma trajetória
Ernesto estrutura sua atuação profissional em torno de três eixos que considera indissociáveis: a formação acadêmica, a prática profissional e o engajamento institucional. Professor e titular de escritório próprio, ele defende que ensinar e praticar precisam andar juntos. “Não dá pra você ensinar uma coisa diferente da prática”, afirma. O terceiro pilar, o institucional, o levou à vice-presidência do IAB e ao CREA antes de chegar ao CAU-BA, onde atua também como diretor de urbanismo e expansão do Instituto Baiano de Direito Imobiliário (IBDI).
Essa visão abrangente orienta sua participação em fóruns como o SIIPE, que ele enxerga como espaço essencial para conectar especialistas de áreas distintas em torno de temas que, na prática urbana, são inseparáveis.

Iluminação, cidade e vida noturna
Um dos argumentos centrais de Ernesto no SIIPE é a transformação do papel da iluminação pública nas cidades contemporâneas. Para ele, a cidade deixou de operar apenas nos períodos matutino e vespertino. “A cidade hoje tem um conteúdo muito forte noturno e que não é pontual, é bastante abrangente”, observa. Nesse contexto, a iluminação passa a ser fator determinante para segurança pública, mobilidade, identidade urbana e qualidade de vida.
A transição das lâmpadas convencionais para o LED representou, segundo ele, um ponto de inflexão. Além da eficiência energética, trouxe consequências em cadeia: cidades mais iluminadas registram redução da criminalidade, o que impacta custos urbanos e até indicadores de saúde pública. “Veja como uma coisa está necessariamente ligada em cadeia”, resume.
O avanço tecnológico também transformou o posteamento em plataforma de coleta de dados, com sensores capazes de monitorar fluxo de veículos, velocidades e condições climáticas, tornando a infraestrutura de iluminação um componente ativo das cidades inteligentes.

O desafio da integração entre gestores e profissionais
Entre os principais obstáculos ao desenvolvimento urbano, Ernesto destaca a desconexão entre gestores públicos e especialistas em urbanismo. Ele aponta que muitas secretarias denominadas “de urbanismo” operam, na prática, como secretarias de obras ou de infraestrutura, confundindo execução com planejamento. “Confunde-se muito obra com desenvolvimento”, diz.
A solução, para ele, passa pela participação cruzada: profissionais que integrem processos de gestão e gestores que frequentem iniciativas técnicas. Fóruns como o SIIPE cumprem esse papel ao criar uma ambiência de troca sistemática, indo além da multidisciplinaridade para alcançar o que chama de interdisciplinaridade e, em nível mais avançado, pandisciplinaridade. Como exemplo, cita o surgimento de especialistas em iluminação para áreas ambientais, como a proteção de tartarugas marinhas no litoral, uma especialização inexistente há quinze anos.

Mobilidade urbana e os hubs como resposta
Na discussão sobre mobilidade, Ernesto defende a instituição de hubs como prioridade estratégica. A experiência ganhou concretude numa viagem de oito dias à Alemanha, a convite do governo da Baviera, onde visitou empresas públicas, privadas e startups que apresentaram casos sobre mobilidade integrada. Em cidades como Murnau, nos Alpes Bávaros, ele observou como pequenos municípios estruturam plataformas de conexão entre bicicletas, pedestres e sistemas de transporte coletivo de forma madura e funcional.
“A gente já está dando o passo 3 ou 4, que é de instituir isso não só para roteiros turísticos, mas para roteiros de trabalho”, avalia. A viagem rendeu ainda um desdobramento direto: um técnico da Urban Standards, empresa de Munique, foi trazido para palestrar no Congresso do IBDI em Salvador, com foco justamente em hubs de mobilidade.
O arquiteto também chama atenção para um desequilíbrio financeiro que considera estrutural: o custo do transporte já supera o custo de alimentação para boa parte dos trabalhadores brasileiros. Esse cenário, segundo ele, explica a explosão da oferta de refeições nas ruas e shoppings, mas revela sobretudo o peso que o deslocamento impõe sobre quem depende dele para trabalhar.

Sustentabilidade como planejamento, não como discurso
Para Ernesto, sustentabilidade não é um tema à parte, mas consequência natural de bom planejamento. Ele critica a visão que trata os temas urbanos como compartimentos separados e propõe enxergá-los como sistema integrado. Cidades mais arborizadas têm menos ruído, menos poluição e melhor relação de transporte. Calçadas bem planejadas geram sensação de acolhimento e segurança que influenciam instintivamente o comportamento dos pedestres.
A dimensão financeira da sustentabilidade também ocupa espaço central em sua argumentação. O subsídio público ao transporte coletivo já corresponde a quase o dobro do valor pago pelo usuário, e esse custo cresce ano a ano. “Nós precisamos encontrar melhores soluções financeiras para agenciar o espaço urbano”, afirma.
Como referência prática, ele cita o e-book “Manual da Transformação Urbana Localizada”, produzido pelo IBDI em parceria com a ONG Casa da Ponte e disponível pelo portal da Secretaria de Desenvolvimento Urbano de Salvador. O material apresenta o mecanismo jurídico das Transformações Urbanas Localizadas (TUL) e um conjunto de boas práticas aplicáveis a diferentes realidades municipais.

Urbanismo transescalar e o futuro das cidades
O conceito de urbanismo transescalar, que Ernesto compartilha com outros especialistas presentes no SIIPE como Denise Vogel, representa para ele não uma possibilidade, mas uma obrigação da gestão contemporânea. A abordagem propõe cruzar todas as instâncias administrativas, operativas e comunitárias no planejamento urbano, recusando a lógica das ações isoladas.
Ele cita o exemplo de Salvador durante a gestão de ACM Neto, que produziu um planejamento cruzado entre secretarias e cujos efeitos a cidade ainda colhe, com programas que vão do patrimônio histórico a incentivos fiscais para construções sustentáveis. “A cidade não é feita no mandato do prefeito”, pondera. “Ela é feita de uma série de dinâmicas que, quando o prefeito observa muito bem isso, funcionam de maneira muito positiva.”
Na mesma direção, aponta os gêmeos digitais como tecnologia de gestão com alto potencial transformador: mapas urbanos em tempo real que permitem decisões mais ágeis do que o ciclo decenal dos planos diretores. Para o futuro próximo, identifica os hubs de mobilidade e a economia do mar como tendências que precisam ganhar espaço na agenda das cidades brasileiras.
A Colômbia, que adotou essa visão integrada há duas décadas, e a Coreia do Sul, que transformou investimento cultural em geração de renda e divisas, são os exemplos internacionais que ele mobiliza para argumentar que desenvolvimento urbano sustentável não é privilégio do primeiro mundo. É, antes, uma escolha de gestão.
