Foto Destaque: Silvia Carneiro, da Iris. (Foto/Reprodução: Youtube/TED)

Silvia Carneiro fala sobre o impacto da iluminação no meio ambiente 

Para a profissional da IRIS, uso inadequado da luz nas cidades pode afetar ecossistemas, saúde humana e até contribuir para a extinção de espécies.

A relação entre iluminação artificial e meio ambiente ainda é pouco compreendida no Brasil, apesar dos impactos cada vez mais evidentes sobre a saúde humana, a fauna e a flora. Essa é a avaliação da especialista Silvia Carneiro, da IRIS, que há mais de uma década pesquisa os efeitos da luz artificial nos seres vivos.

Segundo ela, o país ainda está distante de tratar o tema como política pública, diferentemente de outras nações onde o debate já avançou de forma mais estruturada.

“A luz é energia e faz parte do nosso metabolismo, mas precisamos respeitar o ciclo do claro e escuro. O Brasil ainda não tem entendimento dos impactos da luz artificial”, afirma.

Entre os principais problemas apontados está o desperdício de energia associado a projetos luminotécnicos mal dimensionados. De acordo com a especialista, mesmo propostas que se apresentam como eficientes acabam gerando excesso de luz, contribuindo para a chamada poluição luminosa.

Demonstração de uso inadequado de luz. (Foto/Reprodução: Silvia Carneiro)

Um exemplo citado por Silvia evidencia a dimensão do problema: estudos indicam que a mancha de luz artificial pode avançar até nove quilômetros mar adentro, afetando diretamente ecossistemas sensíveis.

Além do desperdício energético, outro fator crítico é a chamada “luz intrusa” — aquela que invade ambientes internos durante a noite. Esse tipo de iluminação interfere diretamente no sono da população, inibindo a produção de melatonina, hormônio essencial para a regeneração do organismo.

A poluição luminosa, termo utilizado para designar o excesso de luz artificial durante a noite, tem impactos amplos. Segundo a especialista, diferentes espécies possuem sistemas biológicos sensíveis à luz, e a alteração dos ciclos naturais pode comprometer desde processos metabólicos até a sobrevivência de organismos.

“Até as plantas precisam de períodos de escuridão. A iluminação inadequada pode afetar todo um ecossistema, incluindo insetos, pássaros e até organismos do solo”, explica.

Apesar da ampla adoção da tecnologia LED como solução para eficiência energética, Silvia faz uma crítica ao modelo atual de uso. Para ela, a simples substituição tecnológica não resolve o problema quando não há controle adequado da aplicação.

“A gente continua consumindo mais energia. Apagar as luzes ajudaria mais”, afirma.

Outro ponto relevante é a escolha da temperatura de cor. Estudos científicos apontam que comprimentos de onda mais elevados, como a luz vermelha, têm menor impacto nos ritmos circadianos dos seres vivos, enquanto a luz azul e a radiação ultravioleta podem causar danos biológicos, incluindo envelhecimento precoce e até alterações celulares.

No campo normativo, Silvia destaca avanços recentes, como a atualização da norma ABNT 5101, que passou a incorporar diretrizes relacionadas à poluição luminosa. Segundo ela, o cumprimento dessas recomendações, como o uso de temperaturas de cor mais baixas, pode trazer melhorias significativas para a qualidade de vida e o meio ambiente.

Entre os erros mais comuns em projetos de iluminação, a especialista aponta o excesso de luz e a má distribuição luminosa. Fenômenos como o “uplight” (luz direcionada para cima), o “backlight” (luz dispersa para trás) e o ofuscamento são frequentemente ignorados, resultando em desperdício e impactos negativos.

Sistema BUG, permitindo identificar desperdícios, ofuscamento e impactos ambientais na iluminação urbana. (Foto/Reprodução: Silvia Carneiro)

Ela também ressalta que a altura inadequada de instalação das luminárias contribui para a ineficiência, já que quanto maior a distância da fonte luminosa, menor a efetividade da iluminação no solo.

Como alternativa, Silvia defende uma mudança de paradigma: iluminar apenas o necessário, priorizando caminhos e áreas de circulação, evitando interferências em áreas naturais e ecossistemas urbanos.

No campo das soluções, tecnologias como modelagem BIM, sensores de presença e sistemas inteligentes de controle podem contribuir para reduzir impactos. No entanto, ela acredita que o futuro da iluminação sustentável passa por uma combinação entre inovação tecnológica e revisão de conceitos.

“A tendência é o uso de inteligência artificial, sensores e soluções mais adaptativas. Mas, acima de tudo, precisamos repensar o que é qualidade na iluminação”, afirma.

Para a especialista, o caminho para cidades mais sustentáveis passa por uma abordagem mais consciente e integrada, que considere não apenas eficiência energética, mas também os impactos ambientais e biológicos da luz artificial.

“A luz precisa ser tratada com responsabilidade. Se causa impacto negativo, precisamos rever o seu uso”, conclui.

CONHEÇA SILVIA CARNEIRO

Silvia Carneiro é arquiteta especializada em iluminação LED, com atuação desde 2008 em projetos luminotécnicos, consultoria estratégica e desenvolvimento técnico para o setor. Professora de pós-graduação na área, também participa ativamente da revisão de normas da ABNT, incluindo iluminação pública, ambientes de trabalho e acessibilidade, além de contribuir com estudos sobre BIM aplicado à iluminação.

Silvia Carneiro, arquiteta. (Foto/Reprodução: Linkedin)

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