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Urbanismo com Visão de Futuro: Denise Vogel Fala sobre Cidades e Tecnologia

Arquiteta e urbanista discute o conceito de urbanismo transescalar inteligente e os desafios do licenciamento ambiental no Brasil

Antes de se tornar arquiteta, Denise já era urbanista. Não no sentido formal do diploma, mas na forma como sempre enxergou o mundo: pela necessidade de organizar espaços, de pensar o macro antes de descer ao detalhe. Essa visão foi sendo aprofundada ao longo de uma trajetória profissional que já ultrapassa 35 anos de atuação em planejamento urbano, licenciamento ambiental e instrumentos normativos para cidades. É a partir desse acúmulo que ela fala hoje sobre um conceito que considera urgente e ainda pouco compreendido: o urbanismo transescalar inteligente. 

O Espaço Que Ninguém Domina 

Denise tem um exercício favorito em sala de aula. Pergunta aos alunos do oitavo ou nono período de arquitetura quantos metros quadrados tem a sala onde estão sentados. As respostas, segundo ela, costumam ser reveladoras. Em um ambiente de cerca de 100 metros quadrados, há quem responda 20. “Isso me fez crer, a vida inteira, que não há domínio do espaço”, afirma. 

O exemplo ilustra um problema que ela identifica como estrutural na formação dos arquitetos e, por extensão, nas cidades brasileiras. A tendência de organizar os micro espaços antes de compreender as escalas maiores, do quilômetro quadrado ao hectare, resulta, segundo ela, em ambientes urbanos cada vez mais difíceis de se viver. “Como a gente não consegue fazer isso, estamos aí com os ambientes urbanos muito ruins.” 

Imagem gerada por IA. (Foto/Reprodução: ImageFX)

O Conceito que Veio para Ficar 

O urbanismo transescalar inteligente nasce, nas palavras de Denise, de uma frustração acumulada. Ao longo de anos coordenando a elaboração de planos diretores e instrumentos complementares como leis de uso e ocupação do solo, códigos de obra e planos setoriais de mobilidade e saneamento, ela observava auditórios lotados de pessoas que faziam sempre a mesma pergunta: quando isso vai melhorar a vida da gente? 

“A gente faz um plano para definir as áreas que você pode ocupar, as que não pode. Mas aquilo tudo era muito distante da vida das pessoas.” Ela cita o exemplo da iluminação pública: uma cidade pode melhorar significativamente sua infraestrutura de luz, mas se aquela melhoria não chegar ao bairro daquela família, para ela não mudou nada. 

O conceito que propõe busca exatamente preencher essa lacuna: criar soluções que atendam desde uma grande região metropolitana até uma rua, passando por municípios de diferentes portes. Usando tecnologia como ponte entre escalas que hoje não se comunicam, seja por incompatibilidade entre legislações municipais e estaduais, seja por limitações financeiras que impedem cidades menores de acompanhar o que metrópoles conseguem implementar. “O que a gente busca é encontrar uma possibilidade de cima para baixo, para que certas ferramentas sejam de fato implementadas para todos.” 

Imagem gerada por IA. (Foto/Reprodução: ImageFX)

Licenciamento Ambiental e a Burocracia do Tempo 

Outro campo em que Denise atua há décadas é o licenciamento ambiental. E é também de uma frustração que surge o Techno-SIG Ambiental, desenvolvido para enfrentar um dos maiores gargalos do setor: o tempo. No modelo atual, um grande projeto de investimento como uma planta aeroportuária precisa passar por três licenças ambientais sequenciais. O processo, que envolve estudos de impacto ambiental com volumes impressos em capa dura distribuídos entre dezenas de órgãos, pode levar de três a quatro anos antes que o empreendimento comece a operar. 

“O que a gente gasta de tempo no Brasil hoje fazendo diagnóstico… E aqui na Barra da Tijuca não precisa fazer mais diagnóstico para nada. É só compilar tudo que já foi estudado.” O problema, segundo ela, é que os dados estão dispersos, em PDFs inacessíveis ou simplesmente retidos por quem os produziu. 

O Techno-SIG Ambiental propõe um banco de dados aberto, alimentado por inteligência artificial, onde todas as informações dos licenciamentos possam ser depositadas, cruzadas e consultadas em tempo real. O resultado esperado é uma redução expressiva no tempo de processo, potencialmente pela metade, e uma economia de escala significativa para empreendedores e órgãos públicos.

Imagem gerada por IA. (Foto/Reprodução: ImageFX)

A EXPOURBANTECH e as Trocas que importam 

Denise é também uma das vozes centrais por trás da EXPOURBANTECH, evento que tem o Instituto Niemeyer como proponente. Para ela, o encontro representa uma oportunidade de colocar em diálogo três dimensões que toda cidade precisa equilibrar: o funcional, o estrutural e o simbólico. 

O funcional abarca as funções residenciais, comerciais, industriais e de lazer. O estrutural é o que liga tudo isso: mobilidade, saneamento, iluminação, telecomunicações. O simbólico é o patrimônio, a memória, as manifestações culturais que dão identidade aos lugares. Quando algum desses pilares falha, o cotidiano das pessoas é afetado de forma direta. “Eu moro num bairro super bucólico, de frente para a Mata Atlântica, mas não tem água, não tem esgoto. É muito complicado.” 

A EXPOURBANTECH, segundo ela, não será apenas um espaço de apresentação de soluções tecnológicas, mas de troca efetiva de conhecimento entre quem pensa e quem vive a cidade. “O mais importante de um evento dessa natureza são as trocas. É troca de conhecimento, é troca de saber.”

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