Como o setor público pode garantir contratos transparentes e eficientes para cidades inteligentes.
O ritmo acelerado do desenvolvimento tecnológico tem pressionado gestores públicos a repensarem a forma como o Estado contrata soluções de tecnologia para as cidades. Em um cenário em que sistemas de iluminação inteligente, monitoramento urbano e infraestrutura digital se tornam cada vez mais comuns, as práticas tradicionais de licitação mostram sinais de esgotamento.
A questão central não é apenas orçamentária. Contratar um parque de iluminação pública inteligente, por exemplo, vai muito além da simples aquisição de luminárias. O processo envolve sistemas complexos de gestão, softwares integrados e contratos de manutenção de longo prazo, o que exige dos órgãos públicos uma capacidade técnica e jurídica que nem sempre está disponível nos quadros municipais.
O principal desafio está na elaboração de editais que sejam suficientemente flexíveis para não engessar a inovação tecnológica, mas que, ao mesmo tempo, garantam transparência, controle e alinhamento com a legislação vigente. Editais excessivamente prescritivos tendem a favorecer soluções já consolidadas em detrimento de tecnologias mais recentes e potencialmente mais eficientes. Por outro lado, editais vagos demais criam insegurança jurídica e abrem brechas para questionamentos e impugnações.

Além do menor preço
Uma das oportunidades mais significativas para modernizar esse processo está na adoção de modelos de licitação que não se limitem ao critério do menor preço. A lógica puramente econômica, historicamente dominante nas contratações públicas brasileiras, costuma não capturar adequadamente o valor de soluções tecnológicas de maior qualidade, que podem representar economia real no médio e longo prazo.
Abordagens que permitam ao mercado apresentar soluções mais inovadoras, como o diálogo competitivo ou as contratações orientadas por desempenho, tendem a oferecer ao poder público um custo-benefício mais favorável ao longo do ciclo de vida dos contratos. Nesses modelos, o que se avalia não é apenas quanto custa, mas o que a solução entrega e como ela será sustentada ao longo do tempo.
Nesse mesmo sentido, a realização de consultas públicas e chamamentos de mercado antes da abertura formal dos processos licitatórios permite que o poder público compreenda melhor quais soluções estão disponíveis e quais requisitos são tecnicamente viáveis. Essa prática, ainda subutilizada no Brasil, pode evitar que especificações inadequadas frustrem a competitividade ou resultem em contratos problemáticos, desde que conduzida com transparência e devidamente registrada.
Especialistas em contratações públicas têm defendido ainda uma mudança de perspectiva: em vez de detalhar exaustivamente o que o produto deve ser, os editais deveriam descrever o que ele deve fazer. Essa orientação por resultados abre espaço para a inovação e responsabiliza o contratado pelo desempenho da solução entregue, e não apenas pelo cumprimento formal de uma lista de requisitos técnicos. Para isso, os contratos precisam incluir mecanismos robustos de monitoramento, com indicadores claros e critérios objetivos de avaliação.

Impacto nas cidades e nos cidadãos
A qualidade das contratações públicas de tecnologia urbana tem consequências diretas para a população. Sistemas de iluminação inteligente bem contratados podem reduzir gastos com energia elétrica, aumentar a segurança pública e melhorar a qualidade de vida nos bairros. Quando esse processo falha, seja por editais mal elaborados, contratos desequilibrados ou escolha equivocada de soluções, o impacto recai sobre os cidadãos e sobre os cofres públicos, frequentemente de forma difícil de reverter.
A modernização dos processos de licitação em tecnologia urbana, portanto, não é uma questão técnica restrita ao universo jurídico-administrativo. É uma condição essencial para que as cidades brasileiras possam avançar com segurança e eficiência na direção da transformação digital.
Texto produzido por: Raphael Azamor e Ana Beatriz Viana
